1 · Como ler este material
O encontro ocupa a manhã inteira, das nove à uma, em quatro blocos precedidos pelo welcome coffee. Este material registra o que foi exposto e acrescenta o detalhamento que não cabe em tela de projeção: as tabelas de critério, os exemplos de contrato de mensagem, os roteiros de aplicação e as perguntas de verificação de cada etapa.
A leitura foi escrita para ser aplicada a um projeto concreto. Cada bloco reserva os minutos finais à aplicação ao caso que o participante declarou no diagnóstico, e o roteiro correspondente está registrado ao fim da seção — 4.6, 5.6, 6.6 e 7.6. Percorridos os quatro, o desenho da arquitetura e o inventário da base estão definidos em suas decisões principais.
2 · Os projetos desta turma
Treze participantes responderam ao diagnóstico prévio entre 20 e 25 de agosto de 2026, um por projeto em curso. Sete projetos tratam de Operações Hospitalares, cinco de Recebíveis e um abrange os dois temas. Dez estão em implementação, em piloto ou em acompanhamento posterior à implantação, e a autoavaliação de andamento tem média de 3,9 em escala de cinco pontos.
Quanto ao uso de inteligência artificial no projeto, sete declaram uso eventual, cinco declaram uso frequente e um ainda não utiliza. Sete classificam a oportunidade de aplicação como alta, com caso de uso já definido, e seis como média, ainda a explorar. Nenhum projeto está na partida: a decisão em pauta é onde inserir um agente em fluxo que já opera.
As dificuldades apontadas — até três por participante — concentram-se em cinco categorias, e cada uma corresponde a uma decisão de desenho tratada neste material:
| Dificuldade declarada | Menções | Onde é tratada |
|---|---|---|
| Qualidade e estrutura dos dados | 8 de 13 | Seções 7.1 e 7.2 — o que o dado precisa ter para servir de evidência citável. |
| Dependência de tecnologia e sistemas | 6 de 13 | Seções 6.1 e 6.5 — roteamento que encerra o caso quando a evidência não está acessível, e política de retomada. |
| Dependência de outras áreas | 6 de 13 | Seções 5.2, 5.3 e 5.5 — contrato de mensagem, critério de aceite do handoff e o que atravessa a fronteira. |
| Complexidade do processo | 5 de 13 | Seções 4.1 a 4.5 — decomposição, escolha de topologia, divisão modular e exemplo trabalhado. |
| Engajamento das pessoas envolvidas | 4 de 13 | Seções 5.4 e 6.2 — parcial declarado e decisão que permanece com a pessoa responsável. |
Entre as razões pelas quais uma ideia de aplicação de IA não chegou a ser implementada, sete respostas citam falta de conhecimento técnico e três citam não saber como estruturar a solução. São as duas a que este material se dirige.
3 · O limite do agente único
Um agente único resolve bem uma tarefa delimitada. A dificuldade aparece quando ele passa a acumular responsabilidades: o prompt cresce para cobrir cada caso novo, o contexto acumula histórico que já não é pertinente à etapa corrente, e as regras acrescentadas em momentos diferentes começam a se contradizer.
O efeito mais custoso é a perda de fronteira. Quando a saída está errada, não há etapa à qual atribuir a falha, porque não existe ponto intermediário de verificação — apenas o resultado final. Sem fronteira não há medição por etapa; sem medição por etapa, cada alteração no prompt é uma aposta cujo efeito não se sabe isolar.
Decompor o problema tem por objetivo restituir três propriedades: fronteira, para que cada etapa tenha entrada e saída declaradas; verificação, para que a passagem entre etapas possa ser conferida; e pertinência do contexto, para que cada agente receba o que a sua etapa exige e nada além disso.
A decomposição, porém, tem custo: mais chamadas, mais latência acumulada e mais superfície de erro nas passagens. O Bloco 1 trata de quando esse custo se justifica.
4 · Bloco 1 · Decomposição de problemas e arquiteturas multiagentes · 09:00 – 10:00
O objetivo do bloco é fragmentar um desafio corporativo complexo em subprocessos especializados e atribuir responsabilidades a agentes que trabalham em rede.
4.1 · Quando transicionar de single-agent para multi-agent
A transição se justifica quando pelo menos um destes sinais está presente:
- Competências distintas. A tarefa exige buscar em norma, calcular, redigir e conferir, e cada uma dessas operações tem critério de qualidade próprio.
- Permissões distintas. As etapas alcançam sistemas diferentes, e conceder todos os acessos a um único agente violaria o princípio do menor privilégio, consideração decisiva quando há dado pessoal ou clínico envolvido.
- Verificação por terceiro. Alguma etapa precisa ser conferida por quem não a produziu antes de seguir adiante.
- Independência. Partes do fluxo não dependem entre si e podem executar em paralelo.
- Falha localizada. Uma etapa falha com frequência e precisa de repetição própria, sem reprocessar o restante do caso.
E não se justifica quando o que falta é instrução clara — dividir não corrige requisito ambíguo —, quando as etapas compartilham quase todo o contexto e o handoff apenas recopia informação, quando a divisão serve para organizar código em vez de separar decisões, ou quando não existe critério objetivo para afirmar que a etapa terminou bem.
4.2 · Quatro modelos de arquitetura
A topologia determina quem se comunica com quem. Com isso, determina também onde é possível verificar e por onde a falha se propaga.
| Modelo | Como funciona | Quando usar | Limite |
|---|---|---|---|
| Sequencial | Etapas em ordem fixa; a saída de uma é a entrada da seguinte. | Processo estável, com ordem conhecida de antemão. | A etapa mais lenta determina o tempo total, e uma etapa que falha interrompe a cadeia. |
| Hierárquica | Um orquestrador decide quem atua em cada passo e consolida o resultado. | O caminho depende da entrada; há necessidade de auditoria centralizada. | O orquestrador concentra o gargalo e é ponto único de falha. |
| Colaborativa | Agentes trabalham sobre um estado compartilhado, revisando o trabalho uns dos outros. | Problemas abertos, em que o confronto de versões melhora o resultado. | Propensa a loop e a divergência quando não há árbitro nem critério de parada. |
| Rede | Cada agente aciona diretamente aquele de que precisa, sem intermediário. | Domínios amplos e pouco previsíveis, em que centralizar limitaria a escala. | O caminho de execução é difícil de reconstruir depois, o que dificulta auditoria. |
4.3 · Mapeamento de gargalos em fluxos complexos
O agente entra onde o processo hoje espera, retrabalha ou depende de uma pessoa para interpretar. Localizar esses pontos precede o desenho da arquitetura, e o levantamento se faz sobre o fluxo praticado, não sobre o fluxo documentado — os dois divergem com frequência.
- Levante as etapas como ocorrem. Entrada, decisão e saída de cada etapa, com o responsável e o sistema envolvido.
- Meça espera, retrabalho e volume. Tempo em fila, proporção de casos devolvidos para correção e quantidade de casos por dia. Sem essas três medidas não há como priorizar.
- Classifique a natureza da etapa. Regra determinística, julgamento sobre texto ou consulta a várias fontes. A primeira dispensa agente; as outras duas são candidatas.
- Verifique a evidência disponível. Uma etapa só é automatizável se o dado necessário existir em forma consultável e se houver como conferir o resultado produzido.
4.4 · Divisão do escopo em tarefas modulares
Uma tarefa é modular quando pode ser executada, verificada e substituída sem alterar as vizinhas. No exemplo da auditoria, o fluxo se divide em quatro etapas: coletar os documentos do caso com registro de origem; extrair os campos estruturados com citação da procedência de cada um; confrontar os campos com a regra aplicável, apontando divergências; e redigir o parecer com divergência, evidência e regra citada.
São três os indicadores de modularidade: entrada e saída declaradas em formato fixo, critério de aceite verificável por terceiro, e ausência de dependência do estado interno da etapa anterior. Cada etapa deve ser testada com casos típicos, casos de borda e um caso para o qual não exista resposta possível — este último verifica se a etapa sabe declarar que não sabe.
4.5 · Exemplo trabalhado: da conta hospitalar a quatro etapas
O caso de auditoria declarado nesta turma reúne, num único fluxo de prompt, a leitura do prontuário, o confronto com a tabela contratual e a redação da conclusão. Aplicados os critérios de 4.1 a 4.4, ele se decompõe em quatro etapas, cada uma com critério de aceite próprio:
| Etapa | O que faz | Critério de aceite |
|---|---|---|
| 1 · Reunir a evidência | Localiza prontuário, tabela contratual e protocolo do caso e os entrega com o endereço de origem. | Os três documentos presentes, ou o motivo da ausência declarado. |
| 2 · Extrair os itens | Converte a conta em lista de itens cobrados, com código, quantidade e valor unitário. | A soma dos itens extraídos iguala o total da conta. |
| 3 · Confrontar com a regra | Compara cada item com a tabela contratual e com o registro clínico correspondente. | Todo item classificado como devido, indevido ou inconclusivo, com a cláusula citada. |
| 4 · Redigir a conclusão | Consolida a proposta de glosa e o texto que a justifica, item a item. | Cada valor proposto remete a um item já classificado. |
Das quatro etapas, apenas a terceira exige julgamento; as demais são recuperação, conversão e redação. A distinção importa porque determina onde investir verificação: a etapa de julgamento é a que precisa de revisão por terceiro e de conjunto de casos com resposta conhecida, e as outras três se verificam por conferência aritmética ou por presença de campo.
4.6 · Roteiro de aplicação · 09:40 – 09:55
Quinze minutos sobre o processo do próprio projeto, ao final do Bloco 1:
- Escreva o fluxo como ele ocorre hoje — 5 min. Entrada, decisão e saída de cada etapa, com quem executa e em que sistema. Registre o praticado, não o documentado.
- Meça espera, retrabalho e volume — 3 min. Tempo em fila, proporção de casos que voltam para correção e casos por dia. Estimativa declarada como estimativa já serve para priorizar.
- Classifique cada etapa — 4 min. Regra determinística, julgamento sobre texto ou consulta a várias fontes. A primeira não precisa de agente.
- Escolha a topologia e marque a primeira etapa — 3 min. A mais restrita que resolve o caso, com a razão da escolha em uma linha.
5 · Bloco 2 · Especialização de papéis e comunicação inter-agentes · 10:00 – 11:00
O objetivo do bloco é definir perfis específicos para cada agente e estruturar os protocolos de troca de dados entre eles.
5.1 · Personas com responsabilidade restrita
Um papel se define por três declarações: o que o agente entrega, quais ferramentas alcança e o que lhe é vedado. A terceira é a que sustenta a arquitetura, e é a que costuma ficar implícita.
Pesquisador
- Entrega: trechos pertinentes, com fonte e localização.
- Alcança: busca na base de conhecimento e nos repositórios de documento.
- Vedado: concluir, recomendar ou redigir parecer.
Analista
- Entrega: conclusão derivada dos trechos recebidos.
- Alcança: cálculo e consulta às regras aplicáveis.
- Vedado: buscar evidência nova para sustentar conclusão já formada.
Revisor
- Entrega: aprovação ou lista de correções exigidas.
- Alcança: a saída do analista e o critério de aceite.
- Vedado: reescrever a análise em vez de devolvê-la.
Auditor
- Entrega: registro do que foi decidido, por quem e com que evidência.
- Alcança: o histórico completo da execução.
- Vedado: alterar qualquer resultado.
A restrição cumpre função técnica. Um agente que pode buscar evidência e concluir na mesma etapa tende a procurar aquilo que confirma a conclusão já formada, e o resultado deixa de ser verificável — a evidência apresentada foi selecionada pela conclusão. Separar quem levanta de quem conclui preserva a verificação. Quando há dado pessoal ou clínico envolvido, a mesma separação é o que mantém cada agente no menor privilégio necessário à sua etapa.
5.2 · Formato de dados para troca de mensagens
Texto livre entre agentes transfere ambiguidade: o destinatário precisa interpretar antes de executar, e a interpretação varia entre execuções. Um contrato explícito permite validar a mensagem na borda, antes de processá-la.
Os campos mínimos são: emissor e destinatário identificados pelo papel e não pelo modelo; tarefa e caso, que dizem o que fazer e sobre o quê; carga em estrutura fixa; evidência, com a origem de cada afirmação; confiança e pendências, declarando o que ficou incerto; e rastro, com as etapas percorridas e as tentativas realizadas.
// contrato de mensagem — pesquisador → analista { "emissor": "pesquisador", "destinatario": "analista", "tarefa": "confrontar_item_com_regra", "caso_id": "2026-0917-4471", "carga": { "item": "material de síntese X", "quantidade_cobrada": 4, "regra_aplicavel": "tabela contratual §12.3" }, "evidencia": [ { "fonte": "prontuario/2026-0917", "local": "p. 14" }, { "fonte": "contrato/2025-v3", "local": "§12.3" } ], "confianca": 0.82, "pendencias": ["protocolo clínico não localizado"], "rastro": { "etapa": 2, "tentativa": 1 } }
A validação ocorre na entrada do agente destinatário, contra o esquema declarado. Mensagem inválida retorna ao emissor com o motivo e não entra em execução. O campo de pendências merece atenção particular: é ele que permite ao orquestrador decidir o próximo passo sem reler o histórico completo do caso.
5.3 · Critérios de aceite para handoff de tarefas
O handoff é a fronteira em que a qualidade pode ser medida. Sem critério declarado, o erro de uma etapa se torna premissa da seguinte, e o defeito só aparece no resultado final, quando já não é possível localizar sua origem.
| Handoff | Aceita quando | Devolve quando | Verificação |
|---|---|---|---|
| Coletor → Pesquisador | Todos os documentos exigidos pelo tipo de caso estão presentes e legíveis. | Falta documento obrigatório, ou a origem não é identificável. | Lista de documentos por tipo de caso. |
| Pesquisador → Analista | Cada trecho traz fonte e localização, e o conjunto cobre a pergunta feita. | Há afirmação sem fonte, ou a pergunta ficou sem cobertura. | Toda afirmação tem evidência associada. |
| Analista → Revisor | A conclusão cita a regra e os trechos que a sustentam. | A conclusão extrapola a evidência recebida. | Conclusão derivável apenas do que foi entregue. |
| Revisor → Saída | As correções foram aplicadas e o parecer está completo. | Persiste divergência entre analista e revisor. | Segunda leitura sobre o critério de aceite. |
5.4 · Prevenção de loops infinitos e desalinhamentos
Dois agentes que se corrigem mutuamente sem critério de parada consomem orçamento sem convergir. As causas mais frequentes são quatro: critério de aceite ausente, de modo que o revisor sempre encontra o que corrigir porque nada define o suficiente; ida e volta simétrica, em que nenhuma das partes tem autoridade para encerrar; objetivo reinterpretado a cada passagem, deslocando o alvo; e pendência circular, em que cada agente aguarda um dado que o outro só produz depois.
As defesas são de desenho, e não de instrução:
- Limite explícito de iterações por par de agentes, com destino definido ao ser atingido.
- Escalonamento obrigatório — alcançado o limite, a decisão sai do par e vai ao orquestrador ou à pessoa responsável.
- Objetivo imutável, registrado na abertura do caso e fora do alcance dos agentes intermediários.
- Progresso verificável — a iteração que não reduz a lista de pendências não conta como avanço.
- Orçamento por caso em tempo e em número de chamadas, encerrando a execução com resultado parcial declarado.
5.5 · Memória e contexto entre agentes
Dividir o trabalho e em seguida repassar todo o histórico adiante reintroduz, na fronteira entre agentes, o problema de contexto que a divisão veio resolver. Quatro tipos de memória convivem, e cada um tem alcance próprio:
| Tipo | O que guarda | Quem alcança | Consequência de não separar |
|---|---|---|---|
| Do caso | Identificador, entradas e decisões já tomadas neste atendimento. | Todos os agentes da execução, em leitura. | Sem ela, a etapa seguinte repete a pergunta já respondida. |
| Da tarefa | Rascunhos e passos intermediários da etapa corrente. | Apenas o agente que executa a etapa. | Vazando adiante, o raciocínio descartado retorna como se fosse conclusão. |
| De conhecimento | Norma, contrato, procedimento e histórico de decisão. | Recuperação por endereço, filtrada por papel. | Copiada por inteiro para o contexto, dilui o que a etapa exige. |
| De registro | O que cada agente recebeu, devolveu e em quanto tempo. | Fora da execução: auditoria e revisão. | Sem ela, a falha é constatada e não é atribuída a etapa alguma. |
5.6 · Roteiro de aplicação · 10:35 – 10:55
Vinte minutos sobre a decomposição escrita no Bloco 1:
- Nomeie de três a cinco papéis — 5 min. Um por etapa. Duas etapas com critérios de qualidade distintos exigem dois papéis separados.
- Escreva a ficha de cada papel — 7 min. O que entrega, que fontes e ferramentas alcança e o que lhe é vedado. O vedado é a parte que costuma faltar.
- Especifique o contrato entre dois papéis vizinhos — 5 min. Campos obrigatórios, tipo de cada um e o campo que carrega a evidência, com um exemplo preenchido.
- Defina o aceite e a devolução — 3 min. Que condição faz a tarefa ser aceita, e para onde ela volta, com que motivo, quando não for.
6 · Bloco 3 · Roteamento inteligente e orquestração de fluxos agênticos · 11:15 – 12:00
O objetivo do bloco é fazer o agente orquestrador decidir dinamicamente qual agente acionar em cada etapa, a partir do que já foi produzido.
6.1 · Lógica do agente orquestrador
O orquestrador decide o próximo passo a partir do estado do caso, e não de uma sequência fixa escrita de antemão. Sua operação tem quatro momentos: lê o estado — o que já foi apurado, o que está pendente e quais tentativas falharam — em vez do histórico integral; classifica o caso por tipo, complexidade e criticidade, porque caso simples e frequente segue rota curta enquanto caso crítico exige revisão e auditoria; escolhe o papel pela pendência declarada, já que falta de evidência chama o pesquisador, falta de conclusão chama o analista e conclusão não verificada chama o revisor; e registra a decisão com o motivo, sem o que o comportamento do sistema não é reconstruível nem a falha de roteamento é corrigível.
6.2 · Avaliação de desempenho e das saídas parciais
Medir apenas o resultado final impede localizar a etapa responsável pelo erro. Cada handoff é uma oportunidade de medição. Por etapa, acompanhe a proporção de saídas aceitas na primeira tentativa, o número de afirmações sem evidência associada, as iterações consumidas até o aceite, e o tempo e custo por execução. Por fluxo, acompanhe os casos concluídos sem intervenção humana, os encerrados como parcial declarado, a divergência entre o parecer do sistema e a decisão final da pessoa, e o custo por caso concluído.
A verificação se faz por três meios complementares: um conjunto fixo de casos com resposta conhecida, executado a cada alteração; uma amostra revisada por especialista em intervalo regular; e a comparação entre versões do prompt de cada papel.
6.3 · Tratamento de conflitos e divergências
Dois agentes competentes podem chegar a conclusões opostas sobre o mesmo caso. A forma de arbitrar precisa ser decidida no desenho, não durante a execução. As origens da divergência determinam o tratamento:
- Evidência distinta — cada agente consultou fonte diferente. Resolve-se ampliando a evidência, e não por votação.
- Regra ambígua — a norma admite duas leituras. Resolve-se por decisão humana registrada, que passa a integrar a base de conhecimento.
- Critério distinto — os agentes otimizam objetivos diferentes. Resolve-se declarando a precedência entre objetivos.
- Erro de uma das partes — resolve-se pela conferência da evidência citada.
Os mecanismos correspondentes são a precedência declarada — em conflito entre conformidade e custo, a conformidade prevalece por definição do desenho —, um terceiro árbitro com acesso à evidência de ambos e autoridade para encerrar, o encaminhamento humano obrigatório acima de um limite de valor ou de criticidade clínica, e o registro do conflito, pois divergência recorrente indica regra ambígua a corrigir na origem.
6.4 · Otimização de tempo e custo de execução
Cada agente acrescenta uma chamada, e o desenho decide quantas são necessárias e quais podem ocorrer simultaneamente. Para reduzir chamadas: rota curta para o caso simples e frequente, com revisão apenas por amostragem; regra determinística onde ela é suficiente; reaproveitamento de resultado já apurado para o mesmo caso; e encerramento antecipado quando a evidência necessária não existe. Para reduzir tempo: execução em paralelo das etapas sem dependência entre si; modelo dimensionado ao papel, já que extração estruturada e redação de parecer não exigem a mesma capacidade; contexto restrito ao que a etapa precisa; e orçamento por caso, com resultado parcial declarado ao ser atingido.
6.5 · Falha e retomada
A política de retomada é parte do desenho do roteamento, e não ajuste posterior de operação. Duas decisões a compõem.
Repetição segura. Repetir uma etapa só é seguro quando executá-la duas vezes produz o mesmo efeito que executá-la uma vez. A etapa que apenas lê e conclui satisfaz a condição; a que grava, envia ou aprova, não. Identifique o caso por chave estável, registre o que já foi concluído sob essa chave, marque as etapas com efeito externo e habilite a repetição automática apenas onde a condição se verifica.
Estado do caso. O caso interrompido precisa saber onde parou. Sem estado registrado, a retomada reinicia do começo e reprocessa o que já custou tempo e chamada. Registre a etapa concluída e o resultado que ela entregou, retome do ponto seguinte e declare o prazo depois do qual o caso interrompido vai para a fila humana.
6.6 · Roteiro de aplicação · 11:43 – 11:57
Quatorze minutos sobre os papéis declarados no Bloco 2:
- Liste as decisões de caminho — 4 min. Todo ponto em que o fluxo pode seguir por mais de uma direção, com a condição que as separa.
- Separe regra de julgamento — 4 min. O que se decide por condição escrita fica em código; ao modelo resta o que exige interpretação de texto.
- Escreva a condição de encerramento sem resposta — 3 min. Quando a evidência necessária não está acessível, o caso encerra com motivo declarado e destino definido.
- Defina limites de tempo e de tentativa — 3 min. Prazo por etapa, número de tentativas e quem recebe o caso ao esgotá-las.
7 · Bloco 4 · Arquitetura e base de conhecimento do agente · 12:00 – 13:00
Os três blocos anteriores convergem para a base de conhecimento. Ela é o que permite ao pesquisador citar fonte e localização, o que dá ao analista a regra aplicável, e o que transforma a decisão humana sobre um caso ambíguo em critério disponível para os casos seguintes. Qualidade e estrutura dos dados é a dificuldade mais citada no diagnóstico desta turma — oito das treze respostas —, e é a esta seção que a dificuldade corresponde.
Três propriedades tornam a base utilizável por um sistema multiagente:
- Recuperabilidade com endereço. Não basta que o trecho seja encontrado: ele precisa ser citável por fonte e localização, para que a afirmação derivada dele seja conferível.
- Escopo por papel. O que cada agente alcança na base decorre da sua etapa. A restrição de acesso aplica o menor privilégio sobre informação sensível.
- Atualização com procedência. Toda decisão humana registrada sobre caso ambíguo entra na base com data, responsável e alcance declarado. Sem procedência, o critério antigo e o novo passam a competir sem que se saiba qual prevalece.
7.1 · O estado em que o dado se encontra hoje
Antes das três propriedades vem o estado do dado, que decide qual etapa é automatizável e o que precisa ser feito antes:
| Estado do dado | Como aparece nos projetos | O que exige antes de virar entrada | Etapa que o resolve |
|---|---|---|---|
| Disperso | O documento existe, e a sua localização não é conhecida com precisão. | Inventário por origem, com endereço e responsável declarados. | Coleta com registro de procedência. |
| Sem texto | Documento digitalizado como imagem, sem camada de texto. | Reconhecimento de texto, com conferência por amostra antes do uso. | Extração para campo estruturado. |
| Não estruturado | Horário, motivo e justificativa registrados em conversa ou em campo livre. | Esquema de saída declarado antes da extração, com campo para o que não se aplica. | Extração com citação da mensagem de origem. |
| Volumoso | Base histórica extensa, hoje consultada por inteiro a cada análise. | Recorte por caso e recuperação por endereço, em lugar de leitura integral. | Busca dirigida, com o trecho recuperado citado na saída. |
7.2 · Fontes, curadoria e o que fica de fora
Base construída por acumulação responde com o que encontra primeiro. A curadoria é o que separa conteúdo vigente de conteúdo apenas existente, e ela se declara antes da primeira carga.
Fontes elegíveis: norma e política interna vigentes; contrato e tabela de preço em vigor; procedimento operacional publicado; e histórico de decisão sobre caso ambíguo, com a justificativa registrada. Esta última é a fonte que nenhuma outra organização possui, e a que mais depende de ser construída deliberadamente.
Critérios de admissão:
- Vigência — o documento vale hoje, e a data até a qual vale está declarada.
- Autoridade — existe área responsável pelo conteúdo, nomeada.
- Granularidade — o trecho recuperado responde sozinho a uma pergunta, sem depender do documento inteiro.
- Permissão — quem pode ler o trecho está definido antes da ingestão, e não depois do primeiro incidente.
O que fica de fora por decisão: rascunho e versão superada que ninguém retirou de circulação; cópia sem procedência, cuja origem não pode ser reconstruída; dado pessoal que a etapa não exige para concluir; e conteúdo sem dono, pelo qual ninguém responde.
7.3 · Da fonte ao trecho recuperável
Quatro passos separam o arquivo que existe hoje do trecho que o agente consegue citar:
- Inventário com procedência. Cada fonte com endereço, formato, dono e data da última revisão. O inventário precede qualquer carga, e é ele que revela a fonte que ninguém mantém.
- Conversão e limpeza. Imagem vira texto, com conferência por amostra. Cabeçalho repetido, rodapé e numeração saem do corpo do conteúdo, porque competem com ele na recuperação.
- Recorte com metadados. O recorte segue a unidade de sentido do documento — cláusula, item de tabela, procedimento — e carrega origem, versão e permissão.
- Recuperação dirigida. A consulta filtra por permissão e por vigência antes de ordenar por semelhança, e devolve o endereço junto do trecho.
Antes de operar, monte de vinte a trinta perguntas com resposta conhecida e meça quantas a recuperação atende trazendo o trecho correto. Sem essa medida, a qualidade da base permanece matéria de opinião, e a primeira divergência com a área vira discussão sem critério.
7.4 · Citação e rastreabilidade
A citação é o que permite à pessoa responsável conferir em segundos, em vez de refazer o trabalho do agente. Uma resposta acompanhada do endereço da fonte é auditável; a mesma resposta sem esse endereço exige refazer a consulta para ser conferida:
| Sem procedência | Com endereço |
|---|---|
| “O item não é coberto pelo contrato e deve ser glosado.” | “Item não coberto — Contrato 4.812, cláusula 7.3, versão de 12/03/2026, com o trecho recuperado anexo.” |
| Quem confere precisa localizar a cláusula por conta própria; erro e acerto são indistinguíveis sem refazer a consulta. | A conferência se resume a abrir a cláusula citada, e a revisão do contrato muda a resposta de forma visível. |
Registre, a cada resposta: a pergunta recebida; os trechos recuperados com endereço; a versão da base consultada; a resposta produzida; quem consultou e quando; e a decisão humana que se seguiu. Esse registro sustenta a auditoria posterior e alimenta a revisão da própria base.
7.5 · Atualização, versionamento e dono
Conteúdo desatualizado produz resposta plausível apoiada em regra já revogada, sem sinalizar falha alguma. Quatro práticas sustentam o ciclo de vida da base:
| Prática | O que declarar | O que ela evita |
|---|---|---|
| Dono por domínio | A área que responde pelo conteúdo de cada fonte, nominalmente. | Conteúdo que ninguém revisa porque a responsabilidade nunca foi atribuída. |
| Cadência de revisão | De quanto em quanto tempo cada fonte é reconferida, e o que dispara revisão fora do prazo. | Tabela de preço vencida respondendo como se estivesse em vigor. |
| Versionamento | A versão vigente na data, preservando a anterior enquanto houver caso apoiado nela. | Reabrir caso decidido e não conseguir reconstruir a regra que valia. |
| Retorno da decisão | O caso ambíguo decidido pela pessoa volta à base como critério consultável, com a justificativa. | A mesma dúvida escalando à pessoa responsável indefinidamente. |
7.6 · Roteiro de aplicação · 12:35 – 12:55
Vinte minutos preenchendo, para a etapa escolhida no Bloco 1, o inventário da base:
| Fonte que a etapa consulta | Onde está hoje | Formato | Dono | Estado e o que falta antes de virar entrada |
|---|---|---|---|---|
- 7 min — liste as fontes que a etapa consulta, uma por linha, e localize cada uma.
- 7 min — classifique o estado de cada fonte pelo quadro de 7.1 e escreva o que falta em cada caso.
- 6 min — aponte a fonte sem dono declarado e escreva quem deveria respondê-la.
8 · Checklist de desenho
Doze verificações que decidem se a arquitetura se sustenta quando o volume de casos crescer.
| Dimensão | Verificação |
|---|---|
| Decomposição | O gargalo foi medido em espera, retrabalho e volume. |
| Cada etapa tem entrada, saída e critério de aceite escritos. | |
| A topologia escolhida é a mais restrita que resolve o caso. | |
| Papéis e comunicação | Cada papel declara o que entrega, o que alcança e o que lhe é vedado. |
| As mensagens seguem esquema validado na entrada de cada agente. | |
| Existe limite de iterações, com destino definido ao ser atingido. | |
| Orquestração | O roteamento determinístico está em código, e o modelo decide apenas o que exige julgamento. |
| Há conjunto de casos com resposta conhecida antes da entrada em operação. | |
| A precedência entre objetivos em conflito está declarada. | |
| Base de conhecimento | Toda fonte que a etapa consulta tem endereço, formato e dono declarados. |
| A resposta devolve o trecho de origem, e a ausência de trecho é declarada como ausência. | |
| Cada fonte tem periodicidade de revisão e responsável por executá-la. |
9 · Glossário
| Termo | Definição adotada neste material |
|---|---|
| Agente | Unidade de execução com papel declarado, ferramentas delimitadas e critério de aceite próprio. |
| Orquestrador (router, manager) | Agente que decide qual papel acionar em cada passo, a partir do estado do caso, e registra o motivo da decisão. |
| Handoff | Passagem de tarefa entre agentes, sujeita a critério de aceite verificado pelo destinatário. |
| Contrato de mensagem | Esquema que declara os campos obrigatórios da troca entre agentes e permite validação antes do processamento. |
| Parcial declarado | Encerramento da execução com o que foi apurado e as pendências registradas, quando o orçamento do caso se esgota. |
| Menor privilégio | Concessão a cada agente apenas dos acessos exigidos pela sua etapa. |
| Base de conhecimento | Acervo consultável de normas, contratos, protocolos e decisões registradas, endereçável por fonte e localização. |