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Módulo 7 · Sistemas de Informação · Sistemas de Gestão e Governança Empresarial

Regras de negócio e tomada de decisão

Aula 1 — Material de Leitura · Prof. Afonso Brandão · 06/08/2026

Sobre este encontro

Regras de negócio e tomada de decisão · 06/08/2026 · Prof. Afonso

Objetivo de aprendizagem

Ao final do encontro, o estudante deve ser capaz de extrair regras de negócio de um processo empresarial, enunciá-las de forma atômica e rastreável, modelar a decisão correspondente em tabela de decisão e justificar onde cada regra deve ser implementada no sistema de gestão do parceiro.

Estratégia do encontro

Exposição dialogada em quatro blocos, cada um seguido de aplicação imediata sobre o caso do parceiro; o encontro encerra com a produção do catálogo inicial de regras, que é insumo das aulas de configuração de escopo e de testes de implantação.

Estrutura do encontro

  1. Bloco 1 (30 min) — Fundamentos: definição de regra de negócio; distinção entre regra, requisito, processo e política; princípios do Business Rules Manifesto; taxonomia das regras
  2. Bloco 2 (30 min) — Especificação: vocabulário controlado e SBVR; modalidades deônticas; enunciados padronizados; critérios de qualidade e ficha de catálogo
  3. Bloco 3 (35 min) — Decisão: separação entre processo e decisão; DMN e diagrama de requisitos de decisão; tabelas de decisão e política de acionamento
  4. Bloco 4 (25 min) — Governança: onde implementar a regra no ERP; ciclo de vida, propriedade e auditoria; antipadrões; atividade sobre o caso do parceiro

1. O problema da regra implícita

Em projetos de implantação de sistemas de gestão empresarial, parte substancial do retrabalho decorre de critérios que ninguém escreveu. O limite a partir do qual uma compra exige aprovação de diretoria, a condição que impede o faturamento de um pedido, a fórmula que determina o limite de crédito de um cliente: são decisões de negócio que governam a operação diariamente e que, com frequência, existem apenas na prática de quem executa a atividade.

A consequência é previsível. O critério aparece pela primeira vez em teste de aceitação, quando a configuração já foi realizada. A área de negócio afirma que o comportamento está errado; a área de tecnologia demonstra que implementou o que havia sido especificado. Ambas as afirmações procedem, porque a regra nunca foi enunciada.

A regra existe no negócio independentemente de estar escrita. A ausência de enunciado não elimina a regra: transfere sua guarda para a memória individual, impede a verificação e torna a decisão do sistema inauditável.

Erro recorrente

Tratar a elicitação de regras como etapa de documentação posterior ao desenho do processo. Se a regra não é declarada antes da configuração, o que se configura é a interpretação de quem configurou.

2. Definição de regra de negócio

Adota-se a definição consolidada pelo Business Rules Group: regra de negócio é uma diretriz que define ou restringe algum aspecto do negócio, com o propósito de assertar sua estrutura ou de controlar e influenciar seu comportamento.

Três atributos decorrem dessa definição e orientam toda a prática do módulo.

  • Origem no negócio. A regra provém de legislação, contrato, norma setorial, política interna ou decisão de gestão. Não provém do sistema, ainda que o sistema seja o meio pelo qual ela é aplicada.
  • Independência tecnológica. A regra permanece válida se o processo for executado manualmente. O sistema de informação é um dos meios de aplicá-la, não sua justificativa.
  • Efeito determinado. A regra estabelece o que é obrigatório, proibido ou permitido, ou define como um valor é derivado de outros valores.
Caso da aula

Uma distribuidora de peças de reposição industrial vende para clientes de três segmentos: novo (menos de seis meses de relacionamento), regular e estratégico (contrato de fornecimento vigente e faturamento anual superior a R$ 2.000.000,00, com autonomia negocial maior: desconto de até 15% não passa por aprovação intermediária). O vendedor concede desconto diretamente no pedido de venda; a partir de determinado percentual, o pedido precisa de aprovação antes da confirmação. Este caso é retomado ao longo de toda a aula e é o objeto da atividade guiada da seção 15.

RN-014 É obrigatório que pedido de venda com desconto solicitado superior a 15% seja aprovado por diretor comercial antes da confirmação do pedido.
RN-015 É proibido conceder desconto a cliente com título vencido há mais de 30 dias.
RN-016 É permitido confirmar automaticamente pedido de venda com desconto solicitado menor que 5%, desde que o cliente não tenha título vencido há mais de 30 dias.
RN-017 É obrigatório que pedido de cliente novo ou regular, com desconto solicitado de 5% a 15%, incluindo os extremos, seja aprovado por gerente comercial antes da confirmação.
RN-018 É permitido confirmar automaticamente pedido de cliente estratégico, com desconto solicitado de 5% a 15%, incluindo os extremos, desde que o cliente não tenha título vencido há mais de 30 dias.

O enunciado acima ilustra a forma esperada: uma única obrigação, com sujeito determinado, condição objetiva e momento de aplicação explícito.

3. Regra, requisito, processo e política

Os quatro conceitos são frequentemente empregados como equivalentes, o que produz especificações ambíguas e processos rígidos. A distinção é operacional.

ConceitoNaturezaExemplo
PolíticaOrientação geral da organização, não operacionalizável de forma direta.A empresa mantém controle rigoroso sobre gastos discricionários.
Regra de negócioEnunciado atômico e verificável, derivado de uma política ou de norma externa.É proibido reembolsar despesa de viagem sem documento fiscal eletrônico.
RequisitoObrigação imposta ao sistema para que a regra seja cumprida.O sistema deve bloquear o lançamento de despesa sem documento fiscal anexado.
ProcessoSequência de atividades que produz um resultado de negócio.Prestação de contas de viagem: registrar, conferir, aprovar, reembolsar.

A regra é declarativa e responde o que deve valer. O processo é procedimental e responde em que ordem as atividades ocorrem. Quando o critério de decisão é dissolvido na estrutura do fluxo, toda alteração de limite ou de faixa exige redesenhar e republicar o processo.

Critério prático de classificação

Se a frase descreve quando algo ocorre na sequência de trabalho, trata-se de processo. Se descreve sob que condição algo é permitido, exigido ou calculado, trata-se de regra.

4. Princípios do Business Rules Manifesto

O Business Rules Manifesto (Business Rules Group, 2003) enuncia princípios que fundamentam a prática. Quatro são diretamente aplicáveis ao trabalho deste módulo.

Regras constituem artefato próprio

A regra não é subproduto do processo nem do código. É declarada explicitamente, mantida em repositório próprio e referenciada pelo fluxo que a aplica.

Regras pertencem ao negócio

A propriedade e a autoridade de alteração cabem à área de negócio. A área de tecnologia responde pela implementação fiel do enunciado, não por seu conteúdo.

Regras são declarativas

Enunciam condições e obrigações, não algoritmos. A mesma regra admite implementações distintas — parâmetro, fluxo de aprovação ou serviço de decisão — sem que o enunciado se altere.

Regras fundamentam-se em vocabulário

Cada termo empregado no enunciado possui definição única e compartilhada entre as áreas. Sem vocabulário controlado, o mesmo enunciado admite leituras divergentes.

Consequência para a governança

Regra existente apenas no código-fonte, sem enunciado correspondente em repositório de negócio, constitui falha de governança ainda que o comportamento do sistema esteja correto: não há quem responda pela regra nem como demonstrar sua vigência.

5. Taxonomia das regras

A classificação da regra não é exercício terminológico: cada categoria corresponde a um mecanismo distinto de implementação no sistema de gestão.

CategoriaExemplo de enunciadoImplementação típica
Definição de termo e fatoCliente estratégico é o cliente com contrato de fornecimento vigente e faturamento anual superior a R$ 2.000.000,00.Campo, domínio de valores, relacionamento no modelo de dados.
DerivaçãoO desconto automático de um cliente corresponde a um ponto percentual por ano de relacionamento comercial, até o limite de oito pontos percentuais.Fórmula, campo calculado, rotina de cálculo.
RestriçãoÉ proibido conceder desconto a cliente com título vencido há mais de trinta dias.Validação de entrada, verificação de integridade, bloqueio de status.
Regra de açãoQuando um pedido for aprovado com desconto superior a 15%, deve ser gerado alerta para revisão trimestral da política comercial.Fluxo de trabalho, evento, tarefa automática.

A classificação incorreta produz implementação inadequada. Uma derivação tratada como restrição obriga o usuário a informar manualmente um valor que o sistema poderia calcular; uma regra de ação tratada como validação bloqueia a operação em vez de disparar o efeito previsto.

6. Vocabulário controlado e SBVR

A norma SBVR (Semantics of Business Vocabulary and Business Rules, OMG) estabelece que toda regra se apoia em um vocabulário de negócio previamente definido. O vocabulário é composto por três elementos.

  • Termo: designa um conceito do domínio — pedido de venda, segmento do cliente, título vencido.
  • Nome: designa uma instância única — Diretoria Comercial.
  • Fato: associa termos por meio de um verbo — pedido de venda é vinculado a segmento do cliente.

O enunciado da regra emprega exclusivamente termos e fatos declarados no vocabulário. Essa restrição produz três efeitos verificáveis na implantação: elimina a sinonímia entre áreas, que costumam alternar entre "solicitação", "pedido" e "requisição" para o mesmo objeto; alinha o vocabulário de negócio ao dicionário de dados do ERP; e permite verificar, antes da configuração, se a regra é expressável com os dados que o sistema efetivamente mantém.

Ordem de trabalho

A elicitação do vocabulário precede a elicitação das regras. Regra cujo enunciado emprega termo ausente do vocabulário não é implementável sem que antes se decida o significado do termo.

7. Modalidades e enunciados padronizados

A modalidade do enunciado determina o comportamento exigido do sistema. A adoção de fórmulas fixas reduz a ambiguidade e torna a regra diretamente traduzível em critério de teste.

ModalidadeFórmulaComportamento exigido
ObrigaçãoÉ obrigatório que…O sistema impede a conclusão da operação enquanto a condição não for satisfeita.
ProibiçãoÉ proibido que…O sistema rejeita a operação e registra a tentativa.
PermissãoÉ permitido que…O sistema autoriza a operação, usualmente condicionada a perfil ou situação.
NecessidadeÉ necessariamente o caso que…Verdade estrutural do domínio, assumida como invariante do modelo.

Comparem-se os dois enunciados a seguir. O primeiro não é implementável nem testável; o segundo determina univocamente o comportamento do sistema e o critério de verificação.

Inadequado

O sistema deve tratar corretamente os pedidos com desconto alto, avisando quem for responsável.

Adequado

É obrigatório que pedido de venda com desconto solicitado superior a 15% seja aprovado por diretor comercial antes da confirmação do pedido.

8. Critérios de qualidade e ficha de catálogo

Um enunciado só é aceito no catálogo se satisfaz quatro critérios.

  • Atomicidade. Expressa uma única obrigação. Enunciado que emprega "e também" ou "exceto quando" deve ser decomposto em enunciados independentes.
  • Univocidade. Admite uma única interpretação. Expressões como "relevante", "adequado" ou "em tempo hábil" são substituídas por critérios mensuráveis.
  • Verificabilidade. É possível determinar objetivamente, em qualquer instância, se a regra foi cumprida ou violada.
  • Rastreabilidade. Possui identificador estável, origem declarada e vínculo com o processo e com o objeto de configuração que a implementa.

O registro é feito em ficha com estrutura mínima estável, o que permite referenciar a regra em testes de aceitação, registros de mudança e evidências de auditoria.

CampoConteúdo
IdentificadorRN-014, estável ao longo de todo o ciclo de vida da regra.
EnunciadoFrase única, na modalidade adequada, com vocabulário controlado.
CategoriaDefinição, derivação, restrição ou regra de ação.
OrigemPolítica, cláusula contratual, exigência legal ou decisão de gestão, com referência.
ResponsávelÁrea proprietária e papel autorizado a alterar a regra.
Processo afetadoProcesso e atividade em que a regra é aplicada.
ImplementaçãoObjeto de configuração, fluxo de aprovação ou extensão que a materializa.
VigênciaData de início, data de término e versão anterior substituída.
Sobre a numeração

Regra sem identificador não pode ser referenciada em teste, em mudança ou em evidência de auditoria. A numeração é condição de rastreabilidade, não formalidade documental.

9. Processo e decisão

Um processo de negócio contém atividades e decisões. A prática consolidada, refletida na relação entre as notações BPMN e DMN, consiste em manter a decisão fora da estrutura do fluxo: o processo possui uma atividade de decisão que consulta um modelo declarativo e prossegue conforme o resultado obtido.

A alternativa — representar cada critério como um desvio condicional no fluxo — produz processos que precisam ser redesenhados sempre que um limite muda, ainda que a sequência de trabalho permaneça idêntica.

flowchart LR A[Pedido de venda registrado] --> B[Determinar nivel de aprovacao do desconto] B --> C{Resultado} C -->|Aprovacao automatica| D[Confirmar pedido] C -->|Gerencia| E[Encaminhar a gerencia comercial] C -->|Diretoria| F[Encaminhar a diretoria comercial]

Diagrama de requisitos de decisão

A notação DMN (Decision Model and Notation, OMG) organiza o modelo em duas camadas. A primeira, o diagrama de requisitos de decisão, declara quais decisões existem e de que dados de entrada e de que fontes de conhecimento — políticas, normas, contratos — cada uma depende. A segunda camada é a lógica de decisão propriamente dita, usualmente expressa em tabelas.

flowchart BT DS[Desconto solicitado] --> D1[Determinar nivel de aprovacao do desconto] SEG[Segmento do cliente] --> D1 TV[Titulo vencido ha mais de 30 dias] --> D1 D1 --> D3[Definir roteiro de aprovacao] PC[Politica Comercial]:::k -.-> D1 classDef k fill:#fef3c7,stroke:#d97706;

10. Tabelas de decisão

A tabela de decisão expressa a lógica de uma decisão de forma completa e verificável. Cada coluna de entrada corresponde a um dado avaliado; cada coluna de saída, a um resultado produzido; cada linha é uma regra, com a condição aplicável em cada entrada.

Política de acionamento

A política de acionamento declara o que ocorre quando mais de uma linha é satisfeita. As quatro de uso mais frequente são: única, em que as linhas não podem se sobrepor; primeira, em que vale a primeira linha satisfeita na ordem declarada; prioridade, em que vale a linha de maior precedência de saída; e coleta, em que os resultados de todas as linhas satisfeitas são acumulados.

Passo a passo de construção

Uma tabela de decisão não nasce pronta a partir da lógica que se tem na cabeça. Ela é construída em etapas verificáveis, cada uma apoiada nas regras já enunciadas no catálogo — nunca em comportamento decidido no momento de preencher a tabela.

#EtapaO que fazer
1Nomear a decisãoEscreva a pergunta que a tabela responde. Para o caso da aula: Determinar nível de aprovação do desconto — dado um pedido de venda, qual é o nível de aprovação exigido?
2Listar os dados de entradaExtraia as entradas do vocabulário controlado e das regras já enunciadas — não introduza uma entrada que não decorra de regra alguma. No caso: desconto solicitado, segmento do cliente, título vencido há mais de 30 dias.
3Ordenar as colunasColoque primeiro a entrada de maior poder de corte — a que, sozinha, já decide o maior número de casos. A restrição sobre inadimplência vale para qualquer desconto e qualquer segmento: título vencido vai na primeira coluna.
4Declarar os valores de cada entrada, com extremos explícitosDesconto solicitado: menor que 5%; de 5% a 15%, incluindo os dois extremos; maior que 15%. Segmento: novo ou regular; estratégico. Título vencido: sim; não.
5Escrever uma linha por combinação com resultado distintoNão é uma linha por regra enunciada — é uma linha por resultado. Quando título vencido é "sim", o resultado é o mesmo qualquer que seja o desconto ou o segmento: uma única linha basta.
6Preencher a saída a partir de uma regra do catálogoSe a saída de uma linha não decorre de nenhum RN já enunciado, falta escrever a regra antes de preencher a tabela.
7Verificar completudeEnumere todas as combinações de entrada e confirme que cada uma cai em exatamente uma linha, sem sobra.
8Verificar os valores de fronteiraPara cada limite numérico, teste o valor exato do limite. Um pedido com desconto de exatamente 5% ou de exatamente 15% precisa cair em uma linha declarada, sem ambiguidade.

Resultado: nível de aprovação do desconto

Tabela sob política única, decisão Determinar nível de aprovação do desconto, construída pelas oito etapas acima.

#Título vencidoDesconto solicitadoSegmentoNível de aprovação
1simqualquerqualquerBloqueado — desconto não pode ser concedido (RN-015)
2nãomenor que 5%qualquerAprovação automática (RN-016)
3nãode 5% a 15%novo ou regularGerência comercial (RN-017)
4nãode 5% a 15%estratégicoAprovação automática (RN-018)
5nãomaior que 15%qualquerDiretoria comercial (RN-014)

Duas verificações fecham as etapas 7 e 8 sobre esta tabela específica. Completude: título vencido tem dois valores; para "sim", uma única linha cobre todos os casos; para "não", as três faixas de desconto — com o segmento desdobrando a faixa intermediária — esgotam as combinações restantes. Nenhuma combinação fica sem linha. Ausência de conflito: como título vencido é avaliado primeiro e nenhuma outra coluna se repete com o mesmo valor de título vencido em duas linhas com saída diferente, nenhuma combinação satisfaz duas linhas ao mesmo tempo. Os extremos das faixas de desconto — exatamente 5% e exatamente 15% — pertencem à faixa "de 5% a 15%", nunca à faixa vizinha, conforme declarado na etapa 4.

Por que a coluna de título vencido vem primeiro

Colocar primeiro a entrada de maior poder de corte não é estética: reduz o número de linhas necessárias — sem essa ordenação, a condição "sem título vencido" precisaria ser repetida nas quatro linhas seguintes — e explicita que a restrição de inadimplência tem precedência sobre qualquer cálculo de desconto, exatamente como a regra de restrição estabelece.

11. Implementação no ERP

Definida a regra, resta decidir onde implementá-la. Em um sistema de gestão empresarial existem quatro alternativas, ordenadas por acoplamento e por custo de manutenção crescentes.

AlternativaDescriçãoQuando é adequada
ParametrizaçãoConfiguração do produto padrão: tabelas de parâmetros, domínios, limites de alçada.Alternativa preferencial. A alteração da regra não exige desenvolvimento nem novo ciclo completo de testes.
Fluxo de aprovaçãoRecurso de workflow do próprio ERP, com papéis, níveis e prazos configuráveis.Regras de ação e roteiros de aprovação com múltiplos níveis.
Motor de regrasServiço de decisão externo consultado pelo processo.Regra que muda com frequência elevada ou que é compartilhada por vários sistemas.
Extensão em códigoDesenvolvimento sobre o produto padrão.Último recurso. Eleva o custo de atualização de versão e exige teste de regressão a cada ciclo.

O critério de escolha é a alternativa de menor acoplamento capaz de satisfazer a regra. A decisão, a alternativa descartada e a consequência assumida devem constar da ficha da regra: esse registro é o que permite reavaliar a escolha quando o comportamento do negócio muda.

Efeito sobre a atualização de versão

Cada extensão em código adiciona um item ao escopo de teste de regressão de toda atualização do produto. Regras implementadas por parametrização acompanham a evolução do produto sem custo adicional de verificação.

12. Governança das regras

A regra tem ciclo de vida: é elicitada junto ao proprietário, formalizada no catálogo, validada pela área de negócio, publicada e implementada, revisada periodicamente e, eventualmente, revogada. Cada transição é registrada com data e responsável.

Propriedade

Cada regra possui uma única área proprietária e um papel autorizado a alterá-la. A área de tecnologia implementa e não decide o conteúdo. Regras sem proprietário declarado permanecem em vigor sem que ninguém responda por sua atualização.

Evidência

A governança exige duas formas de registro. O versionamento do catálogo, com data de vigência, demonstra qual enunciado estava em vigor em determinado momento. O rastro de execução demonstra qual decisão o sistema tomou em cada instância e com base em quais entradas.

Relação com conformidade

Exigências de controle interno, de proteção de dados pessoais e de obrigações setoriais recaem sobre a decisão efetivamente executada. Sem catálogo versionado e sem rastro de execução, a organização não demonstra qual regra vigorava no momento do fato, e a ausência de demonstração equivale, para fins de auditoria, à ausência de controle.

13. Antipadrões

Quatro situações devem ser identificadas no diagnóstico do processo do parceiro.

  • Regra enterrada no código. O critério existe apenas na implementação, sem enunciado correspondente. A alteração depende de desenvolvimento e o comportamento não é auditável.
  • Regra duplicada. O mesmo critério é implementado em pontos distintos do sistema ou em sistemas diferentes. As cópias divergem na primeira alteração.
  • Regra contraditória. Dois enunciados vigentes produzem resultados incompatíveis para a mesma entrada. Ocorre com frequência quando áreas mantêm catálogos separados.
  • Regra órfã. O enunciado existe, mas sem área proprietária declarada. Não há quem autorize a alteração nem quem responda pela vigência.

O diagnóstico é conduzido sobre o processo em operação: para cada desvio condicional observado no fluxo ou no sistema, verifica-se a existência do enunciado correspondente, do proprietário e da data de vigência. A ausência de qualquer um dos três caracteriza um dos antipadrões acima.

14. BABOK e a prática de análise de negócios

O BABOK Guide (A Guide to the Business Analysis Body of Knowledge), publicado pelo IIBA (International Institute of Business Analysis), define análise de negócios como a prática de possibilitar mudança em um contexto organizacional, definindo necessidades e recomendando soluções que entreguem valor às partes interessadas. As técnicas percorridas nesta aula — elicitação de regras, tabela de decisão, ficha de catálogo — não são exercício isolado: têm nome dentro dessa disciplina.

Seis áreas de conhecimento

Área de conhecimentoO que trata
Planejamento e monitoramentoComo a análise será conduzida: abordagem, partes interessadas, governança do próprio trabalho de análise.
Elicitação e colaboraçãoComo obter informação de quem a possui e confirmar o entendimento com quem forneceu. É o que o grupo faz ao levantar vocabulário e regras junto ao parceiro.
Gestão do ciclo de vida de requisitosRastrear, manter, priorizar e aprovar requisitos ao longo do tempo — o mesmo papel que a ficha de catálogo cumpre para a regra.
Análise de estratégiaConectar a mudança proposta ao estado futuro desejado pela organização.
Análise de requisitos e definição de designBusiness Rules Analysis e Decision Modeling — os dois assuntos centrais desta aula — são técnicas catalogadas nesta área.
Avaliação de soluçãoMedir se a solução implementada entrega o valor esperado e identificar limitações.

Os seis termos centrais (BACCM)

O Business Analysis Core Concept Model define seis termos aplicáveis a qualquer iniciativa de análise. Aplicados ao caso da distribuidora:

TermoNo caso da distribuidora
NecessidadeDescontos concedidos sem critério auditável, com aprovações inconsistentes entre vendedores.
SoluçãoRegras catalogadas e tabela de decisão publicada e parametrizada no ERP.
Parte interessadaDiretoria comercial, gerência de crédito, vendedor, cliente.
ValorRedução de retrabalho, decisão auditável, tempo de aprovação previsível.
ContextoPolítica comercial vigente, perfil dos clientes, restrição de inadimplência.
MudançaPassar de critério informal do vendedor para regra publicada e parametrizada.
Por que isso importa

Nomear a técnica pelo termo usado na prática profissional — elicitação, requisito, regra de negócio, decision modeling — permite que o grupo comunique o trabalho do projeto integrador em vocabulário reconhecido por quem já atua como analista de negócios, e localizar rapidamente onde aprofundar quando faltar técnica.

15. Atividade e aplicação

A atividade conduzida em aula produz o insumo das aulas seguintes: o catálogo inicial de regras alimenta a configuração do escopo na plataforma e os cenários de teste da implantação.

O caso da distribuidora, apresentado nas seções 2 e 10, percorre esse roteiro por completo e serve de modelo: se o processo do parceiro ainda não estiver mapeado em detalhe suficiente, o grupo aplica o roteiro ao caso da distribuidora antes de migrar para o processo real.

  1. Selecionar, no caso do parceiro, um processo que envolva aprovação, classificação ou cálculo.
  2. Registrar o vocabulário: os termos empregados no processo e a definição acordada de cada um.
  3. Enunciar no mínimo cinco regras, atômicas, na modalidade adequada e com identificador estável.
  4. Classificar cada regra segundo a taxonomia da seção 5.
  5. Modelar uma das decisões em tabela, declarando a política de acionamento e verificando completude e ausência de conflito.
  6. Indicar, para cada regra, onde deve ser implementada no ERP, com a justificativa e a alternativa descartada.

Critérios de aceitação do produto

  • Nenhum enunciado emprega termo ausente do vocabulário registrado.
  • Nenhum enunciado contém duas obrigações.
  • A tabela de decisão é completa e sem conflito sob a política declarada, incluídos os valores de fronteira.
  • Cada regra possui origem, área proprietária e ponto de implementação declarados.
Questão de fechamento

Entre as regras levantadas, quantas estavam efetivamente escritas em algum documento da organização antes desta atividade? Para as demais, onde residia o critério até este momento?

16. Referências

  • Business Rules Group — Defining Business Rules: What Are They Really? Relatório final, 2000.
  • Business Rules Group — The Business Rules Manifesto, 2003.
  • OMG — Semantics of Business Vocabulary and Business Rules (SBVR).
  • OMG — Decision Model and Notation (DMN).
  • OMG — Business Process Model and Notation (BPMN 2.0).
  • IIBA — A Guide to the Business Analysis Body of Knowledge (BABOK Guide), análise de regras de negócio.
  • von Halle, B. — Business Rules Applied. Wiley, 2001.
  • Ross, R. — Business Rule Concepts. Business Rule Solutions.
  • Taylor, J. — Real-World Decision Modeling with DMN. Meghan-Kiffer Press, 2016.